A cobra já começou a fumar

06/03/2016

A condução coercitiva de Lula para depor na Polícia Federal, no Aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, precipitou o jogo das eleições presidenciais de 2018. Os exageros nas medidas adotadas para constranger o ex-presidente na Operação Lava-Jato podem fazer o tiro dos setores mais conservadores sair pela culatra.

Esqueceram que Lula não é Dilma e muito menos Zé Dirceu, que não tem mais nenhuma pretensão política, além de frequentar os bastidores do PT e do lobbie empresarial. Dilma, que não pode mais concorrer, continuará sendo a mosca morta que foi até aqui, salvo se baixar uma inspiração divina que a faça reagir aos ataques que vem e continuará sofrendo.

Lula é uma liderança carismática, com grande empatia com o povão, o cidadão comum do campo e das periferias das cidades. A tentativa de desmoralizar o ex-presidente foi uma provocação além dos limites do razoável. Seu discurso na Sede do PT, logo após deixar a PF, sinalizou que a jararaca está viva e só há dois caminhos: desmoralizá-lo de vez, com provas bem fundamentadas, ou alijá-lo da vida política, impedindo-o de concorrer em 2018.

Para mexer com Lula os procuradores do Ministério Público e o juiz Sérgio Moro precisarão de munição pesada. Pode ser até que tenham base para isso, afinal a relação de Lula e seu governo com as grandes empreiteiras é evidente. Mas se não conseguirem enquadrar e desmoralizar o ex-presidente, terão feito muito mais do que o marqueteiro João Santana fez por Lula nas últimas eleições presidenciais.

Lula sabe que está definitivamente queimado com as camadas médias e que seu eleitorado está mesmo no povão. Para se reaproximar deste setor majoritário do eleitorado pode montar uma estratégia de adocicar a boca da grande massa, solicitando a Dilma que retome e amplie os programas sociais nos anos que faltam de seu governo.

Vai adotar o discurso do pobre que chegou ao topo e, justamente por ser pobre, está sendo perseguido pelas elites. Estará livre para propor medidas populares e até recomendá-las de público nos palanques, como uma espécie de conselheiro da presidente Dilma. Isso cai como uma luva entre o povão, embora nem Lula seja pobre e nem seu projeto seja propriamente para alavancar a vida dos trabalhadores e da maioria de nosso povo. Se existe alguém que não tem a ganhar com esse processo é Lula.

Se Dilma aguentar o tranco e conseguir sobreviver vai poder ajudar Lula na sucessão presidencial. Se Dilma vier a ser impedida de governar, Lula ficará a vontade para abrir fogo no presidente provisório, no caso do vice, Michel Temer (PMDB), assumir. Em caso de convocação de novas eleições, naturalmente Lula será aclamado candidato pelo PT.

É verdade que todas as pesquisas apontam que Dilma vai mal das pernas, mas isso pouco importa, porque a presidente não é candidata. Dilma dependia do bom desempenho de Lula, mas Lula nunca dependeu de Dilma. O PT está em frangalhos, é verdade, e deve colher uma derrota amarga nas eleições municipais deste ano. Mas Lula também não depende do PT, tem luz própria.

Do outro lado qual seria o nome que unificaria o sentimento conservador e de direita no país?  José Serra? Aécio Neves? No atual quadro político do país qualquer líder político regional, seja governador ou senador, provavelmente terá seu nome rejeitado nas pesquisas de popularidade. Vide os casos de Geraldo Alckmin (SP), Marconi Perillo (GO) e Beto Richa (PR), todos três governadores do PSDB. Os tucanos não estão se bicando e podem depender, mais uma vez, da posição de Marina Silva, única pré-candidata que não teve sua imagem arranhada da última eleição para cá.

O PMDB, como a velha colcha de retalhos das oligarquias regionais, dificilmente terá um nome de expressão para dar conta de enfrentar Lula e angariar a simpatia do eleitorado conservador. Suas lideranças também estão bastante castigadas pela impopularidade e no final, talvez convenha mais uma vez aguardar para saber quem será o vencedor e se juntar a ele, como sempre fez.

Jair Bolsonaro também é uma liderança carismática, mas por seu discurso ultrarreacionário se atrapalha e não consegue unificar o eleitorado conservador. Lembra um pouco, guardadas as devidas proporções, Donald Trump, o milionário que cospe besteiras a toda hora nas eleições norte-americanas.

Assim, pelo exagero e a empáfia dos que acreditaram que poderiam esmagar Lula com denúncias mesquinhas e acuá-lo como a um ladrão de galinha, precipitou-se o processo da sucessão presidencial. Se existe algo que Lula sabe fazer bem é cativar o povão com seu carisma. E a oposição conservadora? Tem alguém para dar a cara a tapa nas ruas?

Lula não é e nunca quis ser um líder com compromissos de esquerda. Mas sabe que tem capacidade de tocar os corações dos brasileiros mais humildes. A direita, embora tenha acumulado forças no último período, terá que descobrir alguém que a unifique e com a capacidade de conquistar metade mais um dos eleitores. Já a oposição de esquerda vai precisar se reinventar para não ficar mais uma vez abaixo dos cinco por cento. Será que terá essa capacidade?

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