E agora, PT?

04/03/2016

Entre o desânimo das imagens da condução de Lula para depor na Polícia Federal, em  4 de março, e a tentativa de elucidar os fatos, ainda encontro forças para escrever algumas linhas. Desânimo não por Lula e o PT, que serviram às classes dominantes nesses 14 anos de seus governos, mas pelo futuro incerto das conquistas democráticas alcançadas a duras penas pelo povo brasileiro.

Não, o PT e os governos de Lula e Dilma não mudaram o Brasil. Fizeram, sim, alguns programas de inclusão social, como o Bolsa Família, cotas nas universidades públicas, Pró Uni no ensino superior privado e Minha Casa Minha Vida. Foi também dos governos petistas o crédito popular, que estimulou o consumo de massa, não se pode negar.

Lula, Dilma e o PT fizeram muito mal às causas populares, ao dar uma imagem de “esquerda” aos seus governos, que nada mais foram do que ferramentas do grande capital e dos financistas, comandados por um partido de origem popular.

Como escrevi aqui e venho alertando, os governos petistas foram reformistas moderados, diante do reformismo revolucionário adotado na Venezuela, na Bolívia e no Equador. Naqueles países, ainda que com suas contradições e limitações, os governos de Chavez, Evo Morales e Rafael Correa adotaram medidas econômicas e políticas que significaram avanços muito maiores e se confrontaram com os interesses das classes dominantes e do Império.

A base do pensamento econômico petista tinha como sustentação a criação das grandes empresas multinacionais brasileiras, apoiadas e financiadas pelo Estado, na disputa por um lugar ao sol no mercado internacional. O carro-chefe desta política eram, exatamente, as grandes empreiteiras. Elas estiveram presentes em todas as obras faraônicas executadas nos governos petistas.

No entanto, ao contrário de serem fiscalizadas e tuteladas pelo Estado, seguiram o mesmo modelo oportunista de sempre e se locupletaram com obras superfaturadas e desnecessárias com dinheiro público. Mesmo depois de deixar o governo, Lula foi contratado para ser garoto propaganda dessas empresas, com viagens e despesas pagas pela África e América Latina.

A Carta aos Brasileiros, ainda durante a campanha eleitoral de 2002, chancelou o compromisso do PT e seus governos com o sistema financeiro internacional. Se houve e ainda há algo que ficou intocado nos orçamentos anuais do país, são os juros e amortizações da dívida pública, que já consomem 45% dos recursos da União todos os anos. Os bancos e grandes financeiras agradecem.

Como uma mão suja a outra, empreiteiras e grandes bancos privados financiaram as campanhas eleitorais do PT e seus aliados, assim como as dos principais partidos de oposição. E hoje o que se vê é o prato cheio da Operação Lava-Jato, com merda vazando para todos os lados.

Fazer um cidadão pobre ter acesso a bens de consumo duráveis não é tabu, mas não ter projeto educacional transformador é um grande pecado, porque não leva os mais necessitados a refletir sobre a importância de mudar o país. Inserir jovens no mercado de trabalho é dar a muitos a dignidade, mas mantê-los nos limites do emprego precário de milhares de empresas terceirizadoras de mão de obra é condená-los à semi-escravidão. Ampliar o Bolsa Família a 40 milhões de pessoas é necessário, mas mantê-las dependentes do esquema político de prefeitos e vereadores é “viciar o cidadão”, como diria o Rei do Baião.

Hoje, passados 14 anos de governos petistas, Lula volta a atacar a mídia. O que fez nesse tempo todo para ao menos criar uma grande rede de comunicação pública no país? Faltaram recursos? Faltam bons profissionais? Não, faltou vontade política de se chocar com o clube da mídia, capitaneado pelas Organizações Globo. Ou alguém esquece que Lula, em pessoa, esteve no enterro de Roberto Marinho?

Os números provam que os governos petistas mantiveram o subsídio público em propaganda para os grandes grupos de comunicação. Nem o frágil projeto de “regulamentação” da mídia, do colega Franklin Martins, foi aposta firme destes governos. Muito menos o apoio às TVs e rádios comunitárias e populares.

Passados 14 anos e três governos e meio, os petistas agora começam a falar da ameaça de golpe, com base em medidas arbitrárias do Judiciário. E o que fizeram seus governos para mexer com a aristocracia encastelada no Poder Judiciário brasileiro? Nada, absolutamente nada, a não ser nomear juristas de “notório saber” para os tribunais superiores, tão reacionários e vaidosos quanto os que lá já estavam.

Nas ruas de todo o país as velhas polícias militares voltaram a espancar trabalhadores, servidores públicos, sem-teto e estudantes indiscriminadamente, com táticas as mais sórdidas. E este governo o que fez? Enviou ao Congresso uma lei “anti-terrorismo”, a mando da Fifa e do COI, para preservar os espetáculos dos grandes eventos. Além de financiar com dinheiro público toda a infraestrutura para que eles aconteçam.

Passou-se mais de uma década e o campo brasileiro segue tomado pelo agronegócio. Os governos petistas aderiram ao delírio das commodities agrícolas como carro-chefe das exportações, enquanto a reforma agrária ficou no discurso até 2002. Agora nem isso, com a nomeação da dama do agronegócio para o ministério de Dilma. Em 2015, de acordo com os movimentos de luta pela terra, não houve nenhum assentamento sequer para efeito de reforma agrária no Brasil.

O que está morrendo com o PT não são as ideias socialistas no Brasil, sabem os que têm mais consciência política. Até porque o PT que chegou ao governo jamais reivindicou um projeto de transformações sociais. Mas para as grandes massas o que está sendo enterrado mais uma vez é a esperança de mudanças, de uma vida mais digna, de um futuro melhor para a maioria de nosso povo. Afinal, o povo brasileiro concedeu dois mandatos a Lula e dois a Dilma para isso.

O governo Dilma II, cada vez mais acuado e impopular pela própria política de “ajuste fiscal” que adotou, não tem forças para aprovar nada no Congresso Nacional, a não ser os projetos mais conservadores. Chamou um representante da banca para comandar a economia, que deixou o país em situação de terra arrasada. Depois prometeu reforma trabalhista e previdenciária. E nem assim, de joelhos, conseguiu o “perdão” das classes dominantes. A melhor resposta está nos recordes de faturamento e negociações de 4 de março nas bolsas de valores, assim como a cotação do dólar teve a maior queda nos últimos meses.

Os mais ferrenhos petistas e seus blogueiros de plantão teimam em fechar os olhos ao óbvio: “Quem se mistura aos porcos, farelo come”. O que fica claro na Operação Lava-Jato, transformada em campanha moralista na mídia não são os pedalinhos, o sítio ou o tríplex, mas a profunda intimidade construída ao longo dos últimos anos entre líderes petistas e a máfia do clube das empreiteiras.

E agora, PT? Quem vai às ruas defender seu governo diante de uma economia com números desastrosos, desemprego e inflação em alta? Quem vai enfrentar a histeria reacionária da classe média, bradando nas praças contra a corrupção? Que instrumentos foram criados para frear a onda de boatos e interpretações distorcidas dos fatos? Que juízes vão julgar com isenção?

Infelizmente, como disse aqui em outra postagem, no Brasil as aparências enganam. E quem vai pagar por toda essa desmoralização é a militância de esquerda, a intelectualidade que não se vendeu e os movimentos populares independentes. Toda a esquerda será queimada na fogueira do linchamento midiático adotado pela grande mídia e repetido em coro pela classe média. Mas o maior sacrificado nisso tudo, sem dúvida, será novamente o povo brasileiro.

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3 Respostas to “E agora, PT?”

  1. Paulo Cesar Pessoa de Barros said

    Gostei de tudo que escreveu, adorei. Mas o PT deu a corda pra alguém puxar. E foi exatamente o Juiz Sérgio Moro juntamente com a PF que caíram nessa armadilha e acenderam a chama da esperança, que já estava complemente apagada e colocaram nas ruas do país inteiro toda a esquerda em prol do LULA. Era exatamente tudo isso que se esperava que fosse acontecer. Agora meu caro, daqui pra frente, é ver o que vai rolar até 2018.

  2. Valeria said

    Parabéns pela mais que lúcida análise. Clara e simplesmente perfeita.

  3. luis fernando. said

    dilma é um desastre completo não sei se o ex-presidente tem cacife para concorrer e vencer em 2018.a cobertura da Globonews foi tendenciosa,só faltaram soltar fogos na avenida pauiista puro jornalixo.

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