Os três patetas e o quarteto fantástico *

27/02/2016

Devo reconhecer que no auge da minha juventude fiz vista grossa para a História do Brasil e fui injusto com algumas personagens fundamentais. Hoje, na meia idade, já posso e devo fazer autocrítica sobre o que pensava a respeito destas figuras e o que elas representaram para o país e seu povo.

Fui injusto com Getúlio Vargas, a quem grande parte da esquerda brasileira considera como populista, demagogo e conservador. O Getúlio do Estado Novo cometeu muitas injustiças e foi instado a isso por conta da realidade histórica de seu tempo. Seus erros são públicos e notórios.

Já o Getúlio pós-guerra e do segundo mandato mostrou uma face progressista e realizadora. Não só impulsionou a industrialização de parte do país, como comprou algumas brigas estratégicas (entre elas a legislação trabalhista, o salário mínimo e a fundação da Petrobras), que lhe renderam o ódio das elites.

Pressionado pelos setores mais conservadores e sem apoio popular organizado, Getúlio sacrificou a própria vida, adiando por dez anos o desfecho da crise política a favor das classes dominantes, o que só ocorreu em 1964, com o golpe militar.

Outro que subestimei foi João Goulart. O estancieiro de São Borja, que fora ministro do trabalho de Getúlio, vice de Juscelino e de Janio (pelo voto e não na mesma chapa), era apenas um bravo brasileiro, que escolheu o lado do seu povo propondo e lutando até o fim pelas reforma de base, conjunto de medidas que resgatariam a dignidade da maioria dos brasileiros, caso tivessem sido implantadas.

Alguns o acusam de fraqueza, eu incluiria a consoante “n” a esta palavra. Jango foi franco: não tinha como enfrentar o golpe e a cúpula militar sem derramar sangue dos brasileiros. Ele temia por uma intervenção norte-americana e a divisão do país em dois, como ocorrera na Coréia e no Vietnam. Preferiu o exílio, mas jamais se conformou com o atraso e o obscurantismo a que a ditadura condenou o país.

Talvez o mais injustiçado de todos tenha sido Leonel Brizola. O caudilho, como muitos o chamavam, admitia suas costelas à esquerda e à direita, mas era um político firme e realizador. É dele e de Darcy Ribeiro o último projeto educacional de massas no Brasil, com base nos CIEPs.

Além disso, Brizola teve trajetória política irretocável, ao comandar a cadeia da legalidade contra a cúpula militar que não queria dar posse a Jango, quando da renúncia de Jânio Quadros, em 1961. Ele arriscou até mesmo seu cargo de governador do Rio Grande do Sul, convocou a população e venceu aquela batalha histórica.

Sua atitude sempre firme contra as Organizações Globo dava bem a noção que tinha do que representa o monopólio da comunicação no Brasil, a serviço do imperialismo. Por isso foi tão caluniado e jamais perdoado pela cúpula do Plim-Plim.

Darcy Ribeiro, antropólogo e indigenista, foi outra figura extraordinária. Não bastasse ter desbravado a Amazônia para conhecer a cultura das tribos indígenas brasileiras, Darcy foi idealizador da UNB, dos CIEPs e autor de grandes obras que revelam a formação do povo brasileiro, entre elas o estudo “O Povo Brasileiro”.

Comparados a essas quatro personagens, passados 12 anos de governos petistas, Lula, Dilma e José Dirceu são apenas moscas mortas, num prato de comida envenenado. O ex-presidente revela toda a sua incapacidade de contra atacar os adversários, acuado que está pela crise política e econômica. Sequer vem a público reconhecer que seu erro foi tentar fazer omelete sem nem ao menos tentar aquecer a frigideira.

Dilma – um nome tirado da cartola por Lula para substituí-lo – é outra figura inexpressiva. Não fede e nem cheira, lê discursos de assessores e se atrapalha quando tem que improvisar. Uma típica burocrata, sem qualquer capacidade política e disposição para arriscar um passo fora do baile das classes dominantes.

Dirceu, único dos três que pode ser considerado um estrategista, mudou de lado e optou por ser apenas um lobista de grandes empresas, jogando fora seu passado respeitável.

Sem dúvida, os três patetas do PT de hoje são figuras bizarras diante da grandeza de Getúlio Vargas, João Goulart, Leonel Brizola e Darcy Ribeiro. Os quatro nunca pretenderam “ser de esquerda”, mas em suas atitudes e medidas, sempre que foram chamados a tomar decisões optaram por estar ao lado de seu povo. Já os três patetas…

*Texto em homenagem a Frank Justo Acker, que com sua sabedoria me alertara sobre muitas das coisas que abordei nestas linhas.

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Uma resposta to “Os três patetas e o quarteto fantástico *”

  1. luis fernando. said

    o quadro político no brasil é tenebroso,e o que falar da oposição? Aécio,serra,fhc todos tentando posar de defensores da moralidade.

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