A caretice do Carnaval da Globo

15/02/2016

Passei o Carnaval em casa. A intensão não era descansar, desculpa da maioria dos que não gostam do Carnaval. É que não restava alternativa diante das opções que se apresentam durante o reinado de momo.

Tá certo que o Carnaval de rua cresceu, que este ano foram mais de 500 blocos, que havia bloco para todos os gostos, mas há algumas questões básicas que são chaves para a gente se divertir: espontaneidade, alegria e respeito ao próximo.

Definitivamente não é isso que se assiste nas ruas. Os blocos se agigantaram, são dezenas de milhares, quando não centenas de milhares de pessoas se espremendo para acompanhar as agremiações. Todas elas – com raras exceções – contam com aquele gigantesco carro-de-som, de cima do qual um grupo de cantores e músicos “comandam” o espetáculo, animado por uma banda de metais ou uma bateria. Do lado de fora vão os foliões, apertados pela corda.

Os blocos viraram mini escolas de samba, com direito a enredo, samba escolhido e tudo. As fantasias não são pesadas, mas criam uma separação entre componentes e não componentes. Some-se a isso a ansiedade e o receio da aglomeração de milhares de pessoas, pelas ruas e praças de uma cidade que se transforma num forno no verão.

Bom, então restaria acompanhar as escolas de samba, quem sabe dar um pulinho na Avenida. É verdade que tivemos uma safra de sambas-enredo razoável este ano, mas nem isso conseguiu ajudar a superar o clima de mesmice que cerca os desfiles das “superescolasdesamba s.a.”. É a mesma toada do início ao fim, num sambódromo que sempre espera algo novo, que fuja do lugar comum e surpreenda.

As escolas dos grupos B ao E estão largadas à sua própria sorte. Não contam nem mesmo com o espaço da Av. Rio Branco, como acontecia até alguns anos atrás. São obrigadas a desfilar na Av. Intendente Magalhães (Campinho), sem nenhuma estrutura para os componentes e foliões. Uma bagunça, sem iluminação, arquibancadas precárias e tudo que há de pior para receber agremiações da maior dignidade e tradição no Carnaval carioca.

Restaria então o consolo de assistir a tudo pela TV. Sim, porque agora a Globonews transmite até desfiles de blocos. Na verdade a emissora faz uma colagem de imagens e sons do Carnaval das ruas do Rio, São Paulo, Brasília, Salvador e Recife, sem nenhum analista ou crítico que ajude o telespectador a compreender o que se passa.

As transmissões são marcadas pelo lugar comum de comentários e entrevistas banais, nas quais o importante é reforçar, a todo momento, a animação dos foliões. Uma chatice sem fim. A transmissão dos desfiles das escolas dos grupos A e Especial das Escolas de Samba do Rio pela Globo é um espetáculo de caretice.

Das imagens ao som, das entrevistas aos comentários, tudo é repetitivo e cheio de clichês. Não entendo até hoje porque narrador de futebol pode “narrar” desfile de escola de samba. Será por que este é o país do samba e do futebol? Os comentaristas desandam a gastar seus parcos argumentos, sem descrever os enredos.

E as câmeras? Estão sempre voltadas para as “musas”, os destaques e os carros alegóricos. Nem mesmo as baterias são alvos preferenciais da transmissão. O “Carnaval da Globo” transforma a equipe da emissora no grande destaque. Isso fica evidente porque o som da avenida some atrás do estúdio Globeleza, em plena passarela do samba, enquanto o telespectador é obrigado a ouvir as mesmices e asneiras dos apresentadores e sua equipe.

Será que Globo está mesmo querendo se livrar do “maior espetáculo da Terra”, como noticiam nos bastidores? Não se sabe ao certo, mas a decisão de deixar de fora das transmissões as primeiras que desfilam já demonstra a má vontade da emissora com o atual formato do espetáculo.

Méritos para o esforço da TV Brasil, que fez uma boa cobertura do desfile das campeãs, convidando pessoas que vivem as Escolas de Samba, cujos comentários foram, em sua maioria, pertinentes. As câmeras acompanharam os detalhes dos desfiles, os componentes e mesmo as entrevistas e entrevistados foram bem melhores que os da Globo.

Assim, me limitei a participar de meio desfile das Carmelitas, porque na confusão e gigantismo dos blocos nem mesmo os ritmistas têm mais espaço para tocar seus instrumentos. De que adianta participar dos ensaios se na hora do desfile a bateria fica cheia de penetras e gente que nunca deu as caras tocando qualquer coisa, menos samba? Me senti desrespeitado, enchi o saco e sai fora.

O melhor deste Carnaval, para mim, foram os bailes caseiros. Isso mesmo! Eu e minha namorada improvisamos nossos próprios bailes e fantasias, decorando o corredor do apartamento com confetes e serpentinas. O som nós puxamos do Youtube, com velhos sambas e marchinhas. E pode acreditar que foi muito legal, porque a animação está no folião. Aconselho aos amigos e a idéia pode ser estendida para matinés caseiras com a criançada. Vai que essa moda pega…

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: