Carnaval e futebol padrão Globo

10/02/2016

Faz tempo que Carnaval e Futebol viraram produtos cujos formatos foram adaptados aos interesses da TV, mais especificamente às Organizações Globo. Isso não pode ser atribuído somente à emissora, mas também aos dirigentes dos clubes e das escolas de samba.

Quando resolveu comprar a exclusividade dos direitos de imagem desses dois espetáculos, a Globo decidiu intervir no formato dos dois eventos. Os jogos passaram a ser disputados em horários impróprios para os jogadores e torcedores, geralmente às 22 horas. O desfile das Escolas de Samba do grupo especial foi dividido em dois dias e reduzido a 12 agremiações, com tempo de desfile e intervalos determinados dentro do que exigem os patrocinadores.

No caso do futebol os estádios foram se esvaziando, porque o torcedor de arquibancada não tem condição de sair do estádio à meia-noite e chegar em casa por volta da uma ou duas da madruga, tendo que trabalhar no dia seguinte. Daí porque ele prefere ou é obrigado a ficar em casa ou no bar da esquina, assistindo a partida pela telinha. Isso sem falar dos jogos disputados às 17 horas, durante o horário de verão, dentre tantas barbaridades.

No samba a situação chegou a um absurdo tal que de uns anos para cá a Rede Globo simplesmente não transmite os desfiles das primeiras escolas de domingo e da segunda-feira. Quem quiser que assista a um compacto, após a passagem da última escola dos dois dias de desfiles. Este ano as vítimas foram Estácio de Sá e Vila Isabel.

Ano a ano o nível da cobertura dos campeonatos e dos desfiles da Sapucahy vai caindo. Apesar do esforço da publicidade global e dos narradores da Globo para enaltecer os campeonatos e os jogos, raramente se assiste a uma partida emocionante.
O tom artificial das transmissões procura encobrir a mediocridade do espetáculo, comandado por dirigentes corruptos, presidentes de clubes tacanhos, treinadores despreparados e retranqueiros (para preservar seus empregos) e jogadores mal formados. E a TV, que poderia ser um espaço privilegiado para debater soluções, está apenas interessada em extrair lucros do futebol brasileiro, decadente e desmoralizado.

No caso do samba, a situação é ainda pior. Como manifestação cultural, as escolas de samba deveriam ser acompanhadas pela imprensa cotidianamente, como ainda acontece com os grandes clubes de futebol. Pelo menos assim evitariam o espetáculo de tiradas ridículas, gafes e comentários despropositados durante as transmissões. Sem contar as entrevistas eivadas de clichês durante os desfiles.

O pior: os narradores e comentaristas passaram a atrapalhar a transmissão, com o som da pista ao fundo e os microfones do estúdio abertos para um bate-papo completamente fora de propósito durante os desfiles. Um desrespeito ao público.

Este ano a Globo incorporou à sua grade de Carnaval a cobertura dos blocos em algumas capitais. Mas não sem um big contrato quase exclusivo entre a Ambev e a maioria dessas agremiações, o que facilitou a venda do “espetáculo das ruas”. E nem assim a qualidade das transmissões melhorou. Os repórteres e apresentadores – com raras exceções – cansaram de falar bobagens, piadinhas sem graça e perguntas chavão.

O nível das transmissões de futebol e Carnaval pelas Organizações Globo é baixíssimo e pouquíssimos são os espaços reservados para uma reflexão mais profunda sobre o que se produz. Está na cara que os estádios estão vazios, o torcedor anda desinteressado e o nível do futebol praticado no Brasil é abaixo da crítica. Mas para tratar desta crise seria necessário incluir o papel da mídia, que comprou e revende o espetáculo. Apesar disso, ainda temos uma das melhores matérias primas do Planeta, que é o jogador brasileiro.

As Escolas de Samba viraram presas do espetáculo, mais semelhante a uma ópera ensaiada do que a uma manifestação cultural original das comunidades do Rio de Janeiro. Quem vê uma já viu tudo. Este ano méritos para o desfile da Vila Isabel (apesar de não ter merecido a transmissão da Globo), do Salgueiro e da Mangueira, que apresentaram enredos, sambas e fantasias dignas.

O mais lamentável, além do enredo da Unidos da Tijuca sobre o agronegócio, foi a narrativa de Paulo Barros, o modernoso, que transformou o desfile da Portela numa espécie de Disneylandia, com carros alegóricos que nada tem a ver com as viagens da história do Brasil. Em vez de uma viagem pelo Rio Amazonas, um passeio pelo velho Chico ou mesmo as naus do descobrimento que cruzaram o Atlântico, Barros apresentou um monte de bobagens pirotécnicas com inspiração televisiva, como já fez em outras agremiações.

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