O povo é o destaque do Carnaval carioca

26/02/2012

Tudo muda, tudo se transforma. Não há máxima mais verdadeira que essa. No entanto, mudança que não seja transformação é só adaptação, acomodação. Qualquer mudança saudável e honesta preserva a essência, os traços originais da matéria.

Com o Carnaval não é diferente.  Muitos questionam, com razão, a aceleração do samba, que no início dos desfiles era quase um samba-canção. Esquecem de dizer que o que forçou isso foi o gigantismo das escolas, espremidas em desfiles cronometrados, determinados pela TV que compra os direitos de transmissão. A isso se somam as exigências da gravadora do disco dos sambas, no qual cada composição ocupava uma faixa de até 3 minutos.

As grandes baterias de Escolas de samba de hoje (cerca de 250 componentes) são verdadeiras orquestras do ritmo, nas quais cada instrumento tem um papel definido, com graves, médios e agudos. No início as Escolas levavam para a Praça XI uma simples batucada que desfilava,com algumas dezenas de componentes, com o samba batido na palma da mão e acompanhado por
alguns poucos instrumentos de percussão. Alguns curiosos, como colher- de-pau batida no chão e frigideira, porque o samba (manifestação musical e de dança) tinha a ver com a cozinha, as reuniões e festividades regadas a feijoada e outros pratos até então restritos aos pobres, nos terreiros das favelas.

Com os primeiros concursos patocinados pelo Jornal do Brasil, nos anos 30, foram estabelecidos os quesitos, as agremiações foram crescendo, adotaram enredos ligados à História do Brasil e necessitavam de um acompanhamento rítmico maior.

A entrada dos carnavalescos nas Escolas, a partir de Fernando Pamplona e seus discípulos da EBA/UFRJ no início dos anos 60, modificou em muito os desfiles. O aspecto plástico, de alegorias, adereços e fantasias, passou a ter grande importância na apresentação do enredo das Escolas de samba. O espetáculo foi ganhando ingredientes até então inexistentes ou pouco
representativos, como iluminação e sonorização.

A primeira geração de carnavalescos (Pamplona, Arlindo Rodrigues) teve o cuidado de introduzir elementos novos aos desfiles, procurando entender a origem das escolas, dialogando com seus componentes. A geração posterior de carnavalescos já pegou o Carnaval de negócios, com salários e superpoderes, inclusive para determinar o Enredo e regras para a composição dos sambas, dentro da lógica descritiva do enredo que eles próprios bolavam.

Aos poucos o desfile das Escolas se transformou num megaespetáculo, com elementos de música, teatro e artes plásticas alterando por completo a origem do samba e das próprias agremiações. Profissionais das escolas migram de uma para outra apenas por dinheiro, as quadras e barracões saíram das comunidades e foram para o asfalto, tornando-se mais atrativas para receber a classe média e a captação de recursos. A classe média tomou conta das alas e do desfile. Uma grande emissora de TV comprou o direito de transmissão e passou a influenciar direta e indiretamente nos critérios e na estética do
espetáculo.

O samba-enredo em si deixou de ter a importância inicial, passando a ser apenas mais um ingrediente do desfile. Some-se a isso o fato de que a escolha do samba passou a ser por critérios que atendem menos às necessidades da agremiação, e mais a acomodação de interesses internos e externos. Os grandes poetas-compositores, que insistem em fugir das exigências dos
carnavalescos, abandonaram a disputa e o que restou são, via de regra, os consórcios formados por gente que apenas assina composições pobres em melodia e letra.

Sem dúvida que o desfile das Escolas do grupo especial se transformou num grande espetáculo, mas de samba tem muito pouco.  Trata-se de algo mais parecido a uma grande ópera à céu aberto, cada vez mais previsível e monótono.
 
Com os blocos não foi diferente. Os blocos de rua do início do século XXI, é claro, não são os mesmos do século XX. É bom que se diga que eles têm origem nas sociedades, corsos, batalhas de confetes e outras formas de manifestação carnavalescas da classe média alta, que já faziam parte do Carnaval carioca do início do século XX.

Em franca decadência nos anos 70, os blocos só retomaram seus espaços nos anos 90, depois que muitos cariocas se cansaram da mesmice dos desfiles da Sapucahy e de fugir da cidade no Carnaval. Hoje são mais de 400 blocos oficialmente reconhecidos, fora os que não se preocupam com registros e relações com a Riotur.

O gigantismo dos blocos tem a ver com o fato de que o Rio de hoje é uma cidade de mais de 6 milhões de habitantes, na qual o Carnaval de rua é uma atração gratuita para os foliões de todos os gostos e idades. Num bloco é possível ouvir música e dançar, tomar cerveja e paquerar a um preço irrisório.

O ressurgimento dos blocos de rua, mesmo com outras características, foi uma reação positiva do carioca à pasteurização midiática do carnaval das Escolas de Samba. Mas os próprios blocos correm o risco de se transformar também em instrumentos de mídia, no joguete das cervejarias e seus camarotes. Já há uma indústria dos blocos, com baterias remuneradas, camisetas e outros pequenos esquemas que podem se transformar em armadilhas para essas agremiações.

Outro mito que o Carnaval de rua derruba é de que o povo brasileiro é pacífico e ordeiro. O entrudo do século XVIII era uma festa violenta. Os clóvis (mascarados) ou bate-bolas de hoje sempre promoveram batalhas nos bairros populares.  O bloco Chave-de-Ouro era reprimido pela polícia, porque seu desfile na Quarta de Cinzas era uma afronta ao calendário da Igreja católica. Os sambistas dos primeiros desfiles das escolas eram tratados como marginais e via de regra detidos pela polícia.

Outro grande foco carnavalesco do Rio eram os bailes de salão. Nos clubes mais pobres ou nos de classe média alta, eles atraíam os foliões para dançar as marchinhas e sambas. Eram municiados pelos concursos de músicas de Carnaval, promovidos pelas rádios Nacional, Guanabara e outras. Ali, grandes compositores (Lamartine Babo, Braguinha, Erivelto Martins, etc) e cantores colocavam toda a sua criatividade e emoção em canções simples e comunicativas, que incendiavam os bailes e as ruas.

Recuperar os bailes é uma grande idéia, mas que carece do essencial: os concursos e a divulgãção das músicas concorrentes pelas emissoras de Rádio e TV. Sem isso, os bailes tendem a ser apenas um espaço nostálgico para execução de antigas canções. 

O mais importante na polêmica entre “tradicionalistas” e “modernosos”, a meu juízo, não é saber quem tem razão, mas constatar que o povo sempre encontra seu jeito de driblar os megaeventos elitizados, produzidos artificialmente, e de criar o seu próprio espetáculo. E se esse novo Carnaval também for incorporado como mercadoria de mídia, dar as costas e voltar às ruas com novas formas de manifestação cultural.

Em resumo: a mídia se apropria do Carnaval, adapta suas manifestações às necessidades do mercado, mas não cria nada. Quem cria a cultura popular é o povo. No fundo o carioca tem uma consciência vaga de que sem ele o Carnaval não pode existir. Cabe a ele superar os descaminhos e determinar os caminhos do Carnaval.

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