Carnavais da Globo, malandros profissionais e anti-heróis*

11/02/2012

Peço permissão ao antropólogo Roberto da Matta para usar o título do seu livro para analisar o movimento grevista na PM e no Corpo de Bombeiros e sua repercussão. A polícia, no entender de V. I. Lenin (líder da revolução Russa de 1917), é parte dos corpos especiais do Estado para garantir os interesses da classe dominante, no caso, a burguesia. É um instrumento profissional de força, de opressão sobre os trabalhadores e o povo, de garantia da ordem que interessa às elites.

É por este motivo que aos policiais é vedado a organização em sindicatos e a realização de movimentos grevistas. No caso do Brasil, se trata de um serviço essencial não à segurança de toda a sociedade e da população, como dizem os governantes e a grande mídia, mas à segurança do Estado e da burguesia.

A formação de policiais no Brasil é uma calamidade, a própria polícia que conhecemos é herança das Entradas e Bandeiras e das tropas imperiais, criadas para caçar negro fujão e reprimir revoltas populares. Piora o fato de que no Brasil a polícia é militarizada, seguindo a hierarquia da caserna.

A esse corpo especial de repressão tudo é permitido, desde expulsar sem-teto e sem-terra de suas ocupações, criar grupos de extermínio e assassinar jovens das favelas e periferias. Seus membros são incentivados a fazer “justiça” com as próprias mãos e, nas horas vagas, trabalhar de segurança (jagunço) em boates, condomínios de luxo, para contraventores ricos, em fazendas, bancos, etc.

Acontece que de uns anos para cá a tropa decidiu levantar a cabeça e reivindicar salários dignos. E neste ano o movimento coincidiu com a época do Carnaval. Logo a grande mídia e os governantes, se utilizando de diálogos gravados em grampos telefônicos, passaram a usar este aspecto para plantar uma campanha de terror, alegando que o movimento grevista ameaçaria o Carnaval, a maior festa popular do país.

De fato, o Carnaval é a maior festa popular do Brasil, mas o que interessa não é a festa em si, e sim os lucros e dividendos que ela gera. O Carnaval ameaçado não é o do povo nas ruas, porque esse, inclusive, sempre teve uma pitada de violência e nunca precisou de intervenção policial, desde a guerra de limões do tempo do Entrudo. O que estaria ameaçado é o negócio do Carnaval dos carros alegóricos e dos abadás, cujas imagens são vendidas pelas grandes emissoras de TV a peso de ouro para centenas de países.

Desde que Chico Buarque musicou sua Ópera do Malandro o Brasil todo mundo sabe que hoje o normal é malandro profissional, de terno, gravata e capital. São esses malandros, donos do grande negócio em que se transformou o país, que ficam preocupados quando a tropa decide se mobilizar e pedir melhores salários.

Juristas, deputados, governadores, todos numa só voz condenam o movimento, sob a alegação de que ele a greve é ilegal. Mas o “bico” de policiais e bombeiros – servidores públicos que podem portar armas de fogo – pode!? Não é ilegal!? Esses mesmos malandros profissionais nada falam sobre as barbaridades ilegais perpetradas pela sua polícia quando se trata de reprimir os trabalhadores e o povo. No máximo se dizem dispostos a apurar os “excessos” cometidos por alguns, o que nunca acontece.

Imaginem se esses malandros ficarem sem a proteção dos seus jagunços? Imaginem se seus jagunços adestrados decidem agir por conta própria e receber salários dignos? Como vai ficar a segurança dos negócios escusos, das mansões e terras adquiridas a partir de falcatruas e exploração?

Nossos heróis, no caso, não são aqueles mauricinhos e patricinhas que o Pedro Bial se esforça para elogiar no BBB. São uma espécie de anti-heróis. Bombeiros e soldados da PM pertencem à escória da sociedade. Moram mal, recebem salários baixíssimos e vivem com receio de mostrar sua identidade fora de serviço.

Apesar disso, por suas funções, são chamados pelo povo a “dar um jeito” e a “limpar a área” nas comunidades em que residem, tomadas por bandidinhos pés-de-chinelo. Daí a origem das atuais milícias, que sempre foram toleradas e incentivadas pelos malandros profissionais. Ou alguém nega que os malandros profissionais que ocupam o Palácio Laranjeiras e o Piranhão fizeram suas respectivas campanhas eleitorais em palanques com chefes de milícias?

Esses anti-heróis, recrutados entre a escória da sociedade, mal formados e com baixa escolaridade, se tornam uma ameaça quando levantam a cabeça e exigem melhores salários. O que antes era tolerado e incentivado pelos malandros profissionais é condenado como “terrorismo” e atos de “vandalismo”.

Ocupar o quartel central do Corpo de Bombeiros, no Rio, ou a Assembléia Legislativa da Bahia sem portar armas é crime, mas expulsar sem-terra de fazendas improdutivas ou sem-teto de terrenos baldios na base das bombas e cassetetes não é. Quando usam de todos meios (legais e ilegais) para executar os planos de segurança dos malandros profissionais são tratados como heróis e até condecorados, mas quando resolvem lutar por dignidade são achincalhados, presos e expulsos da corporação.

Como se vê, Carnavais, malandros e heróis têm seus lugares e papéis bem definidos no Brasil. O problema é quando os heróis decidem enfrentar os malandros e ameaçam estragar seus carnavais.

*Carnavais, malandros e heróis é o título de um livro do antropólogo Roberto da Matta

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