Qual a verdadeira posição do Brasil no ranking mundial?*

09/01/2012

Dados divulgados pelo Economist Intelligence Unit (EIU), empresa de consultoria e pesquisa ligada à revista inglesa The Economist, informam que o Brasil, com Produto Interno Bruto (PIB) estimado em 2,44 trilhões de dólares no fim de 2011, ultrapassou a Inglaterra (PIB de 2,41 trilhões) e é hoje a sexta economia do mundo. Os números foram festejados pelo governo, por empresários e, principalmente, pela grande mídia, que afirma que o Brasil não é mais o “país do futuro”, mas do presente e que estaria melhor que os europeus, por exemplo.

Mas será que há mesmo o que festejar? Se analisarmos outros rankings internacionais, encontraremos razões para responder negativamente. O do Índice de Desenvolvimento (IDH) da ONU, por exemplo, coloca o Brasil em 84º, muito longe dos países europeus e outros desenvolvidos. O país, apesar de sua importância econômica, está atrás de países mais pobres, como os vizinhos Equador (83º), Peru (80º) e Venezuela (73º) e, ainda no âmbito da América Latina, distante de Cuba (51°), Uruguai (48º), Argentina (45°) e Chile (44º). E atrás mesmo de países que passaram recentemente por guerras, como a Bósnia-Herzegóvina (74º) e a Sérvia (59º). Os cinco primeiros do ranking são Noruega, Austrália, Holanda, Estados Unidos e Nova Zelândia.

Em termos de renda também os números são muito desfavoráveis para os brasileiros que, em sua maioria, não desfrutam os benefícios do crescimento econômico. Segundo o Censo 2010, a renda média dos brasileiros, por exemplo, ficou em R$ 668,00, mas mais da metade da população vive com menos de R$ 375,00, o equivalente a 73.5% do salário mínimo de 2010.

Os números confirmam que o Brasil continua sendo um país muito desigual. Os 10% mais ricos, com R$ 5.345,22, têm renda média mensal 39 vezes maior do que os 10% mais pobres, que ficam com R$ 137,06. Já na parcela do topo, do 1% mais bem pago, a renda mensal ultrapassa R$ 15.500,00.

Também em questões básicas do dia a dia e da qualidade de vida, os números não são nada animadores. Em relação ao saneamento básico, que é um fator ligado diretamente à saúde e à vida, segundo também o Censo de 2010, apenas 55,4% dos domicílios do Brasil estão ligados a alguma rede de saneamento básico, ou seja, 44,6% dos domicílios não contam com coleta de esgoto, e seus moradores ficam diariamente expostos a doenças evitáveis.

A falta de saneamento é apontada pelos especialistas como um dos determinantes de outros números que colocam o Brasil muito mal no cenário mundial: os da mortalidade infantil. Apesar de muitos progressos, o país é 90º colocado no ranking mundial, com 19,8 crianças mortas antes de completar cindo anos de vida para cada mil nascidas. A taxa é bem superior aos países do topo da lista, como Islândia (2,6), Chipre (2,7) e Suécia (2,7). E, mesmo em relação a países pobres e em desenvolvimento, a comparação mostra como o Brasil está mal. Em Cuba, a taxa de mortalidade é de 5,25, no Chile, de 6,48, na China, de 15,4, na Colômbia, de 15,3 e, na Argentina, de 12,8.

Uma análise de outros números, os do Orçamento da União e seus gastos, pode explicar por que a sexta economia do mundo tem números tão ruins em qualidade de vida, saneamento básico, mortalidade infantil e outros. Estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), um órgão do governo brasileiro, revela que, entre 2000 e 2007, foram gastos R$ 1,2 trilhão com pagamento de juros da dívida pública. A quantia representa mais que o dobro da soma dos dispêndios, no mesmo período, com Saúde (R$ 310 bilhões), Educação (R$ 149 bilhões) e investimentos (R$ 93 milhões).

Com isso, a conclusão dos economistas do Ipea é que, ao contrário do que diz o governo e a grande mídia, a desigualdade entre a renda do trabalho, o que recebem os trabalhadores, e os ganhos de propriedade, o lucro das empresas e dos especuladores do sistema financeiro, é maior hoje que na década de 1980. Como não houve nenhuma mudança nas políticas econômica e monetária nem nos investimentos desde 2007, a expectativa é que a desigualdade tenha aumentado ainda mais.

Outros números que mostram que a situação do Brasil e, principalmente, dos brasileiros, é muito diferente do que querem crer, vem da Economist Intelligence Unit, a mesma consultoria inglesa que revelou a condição de sexto maior PIB do mundo. Estudo da empresa constatou que, dos países do G20, o grupo das 20 maiores economias do mundo, o Brasil é o primeiro colocado em pagamento de juros, ou seja, em transferência de recursos para o capital financeiro, com 5,1% do PIB.

Apenas para comparar, na Espanha, que enfrenta uma séria crise de liquidez por causa do seu alto endividamento, a proporção dos desembolsos com juros em relação ao PIB ficou, no ano passado, em 1,6% do PIB. Na Irlanda e na Itália, os índices ficaram em 3,2% e 4,53%, respectivamente.

A conclusão final é clara. O crescimento da economia brasileira não resulta em benefício para o conjunto dos brasileiros, mas, ao contrário, por causa da política econômica e monetária, agrava a desigualdade entre a renda do trabalhado e os ganhos do capital. E com um fator agravante: a imensa transferência de recursos públicos para o sistema financeiro que impede o país de investir em sua infraestrutura e na melhoria de serviços básicos e indispensáveis, como Saúde e Educação.

Por isso, se não houver mudanças urgentes nessas política e, principalmente, redução dos gastos com a dívida e aumento dos investimentos do Estado, vamos aprofundar ano após ano o imenso fosso que separa o “país do presente”, aquele da sexta economia do mundo, do “país do passado”, aquele em que milhões de pessoas, como se vivessem na Idade Média, não têm acesso a redes de esgotos ou de abastecimento de água e não contam com nenhuma forma de atendimento de Saúde.

*Artigo de Nelson Moreira, jornalista de O Dia

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